Levantamento revela que a maioria dos pacientes no estado descobre a doença em estágio avançado, reduzindo as chances de cura e aumentando os desafios no acesso ao tratamento.
Rondônia ocupa a primeira posição no ranking nacional de diagnóstico tardio de câncer de pulmão, segundo dados do Radar do Câncer, plataforma desenvolvida pelo Instituto Oncoguia com base em informações do Sistema Único de Saúde (SUS).
O levantamento mostra que a maior parte dos pacientes no estado recebe o diagnóstico apenas quando a doença já se encontra em estágio avançado, comprometendo significativamente as possibilidades de tratamento com intenção curativa.
Na oncologia, o estadiamento é utilizado para definir a extensão da doença no momento do diagnóstico. Quando o câncer é identificado nos estágios iniciais (1 e 2), as chances de cura são consideravelmente maiores.
Já nos estágios 3 e 4, o tumor normalmente apresenta maior comprometimento do organismo e pode ter se espalhado para outros órgãos, exigindo tratamentos mais complexos.
De acordo com o levantamento, a média nacional de diagnósticos em estágios avançados para câncer de pulmão chega a 87% nos últimos três anos (2024 a 2026).
Em Rondônia, o cenário é ainda mais preocupante, colocando o estado na liderança nacional em diagnósticos tardios da doença.
Para a presidente e fundadora do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz, os números refletem falhas na identificação precoce dos casos e no acesso oportuno ao sistema de saúde.
“O diagnóstico tardio é o retrato doloroso de uma jornada que começou errada. Não estamos falando apenas de estatísticas, mas de vidas que perderam um tempo precioso. Precisamos capacitar as equipes de saúde para pensar em câncer de pulmão desde os primeiros sintomas. O tempo gasto entre consultas e exames pode ser decisivo entre uma doença curável e um quadro muito mais complexo”, afirma.
Espera pelo tratamento preocupa especialistas
Além da demora para o diagnóstico, o estudo aponta dificuldades enfrentadas pelos pacientes para iniciar o tratamento.
Embora a Lei Federal nº 12.732, conhecida como Lei dos 60 Dias, determine que o primeiro tratamento oncológico seja iniciado em até dois meses após o diagnóstico, cerca de 29% dos pacientes com câncer de pulmão em Rondônia aguardam mais de 60 dias entre a emissão do laudo da biópsia e o início da terapia.
Segundo o Instituto Oncoguia, essa espera representa um período crítico, em que a doença continua evoluindo enquanto o paciente enfrenta o impacto físico e emocional do diagnóstico.
Distância também dificulta acesso ao tratamento
Outro desafio apontado pelo Radar do Câncer é a necessidade de deslocamento para receber atendimento especializado.

Os dados mostram que 60% dos pacientes rondonienses precisaram viajar para outros municípios em busca de diagnóstico, exames ou tratamento oncológico, consequência da concentração dos serviços especializados em poucas cidades.
Para Luciana Holtz, essa realidade amplia as desigualdades no atendimento.
“Pacientes com câncer de pulmão, que em sua maioria já estão em estágios avançados da doença, enfrentam um impacto enorme ao precisar sair de sua cidade ou até do estado para buscar tratamento.
Além das dificuldades clínicas, há consequências financeiras, emocionais e sociais. É fundamental ampliar o acesso aos serviços de saúde de forma mais ágil e descentralizada.”
Plataforma reúne indicadores do SUS
O Radar do Câncer é uma plataforma criada pelo Instituto Oncoguia para reunir, organizar e cruzar dados públicos do Sistema Único de Saúde (SUS).
A ferramenta oferece informações sobre diagnóstico, tratamento e assistência oncológica em todo o país, servindo de apoio para pesquisadores, gestores públicos, jornalistas e instituições envolvidas no combate ao câncer.
Agosto Branco reforça conscientização
Como parte das ações de conscientização, o Instituto Oncoguia lançou o guia oficial do Agosto Branco, campanha nacional dedicada à prevenção e ao diagnóstico precoce do câncer de pulmão.
O material é gratuito e direcionado a empresas, hospitais, gestores públicos, profissionais da imprensa e à sociedade. A campanha deste ano traz o tema “Câncer de Pulmão: EU? EU!”, com a mensagem: “Se você tem pulmões, essa conversa é com você.”
A iniciativa busca combater o estigma relacionado à doença, ampliar a informação sobre fatores de risco – que vão além do tabagismo – e incentivar o diagnóstico precoce, considerado um dos principais fatores para aumentar as chances de sucesso no tratamento.
